Talvez a maioria de nós tenha ouvido muitas teorias acerca das causas da escoliose. Como a ideia de que a má postura ao sentar, o défice de cálcio ou o uso de mochilas pesadas curvam a coluna em forma de “S” ou “C”.
Não é assim.
A Sociedade de Investigação da Escoliose (Scoliosis Research Society, SRS) é contundente: estes mitos e os erros posturais não provocam a deformidade estrutural da coluna, embora possam gerar dores musculares e problemas crónicos. Mas esse é outro tema.
Neste artigo responderemos a perguntas sobre o que é a escoliose, quais os seus sintomas e como tratá-la na infância, adolescência ou idade adulta.
O que é a escoliose?
A escoliose é uma uma alteração estrutural permanente da coluna vertebral e que se pode apresentar em qualquer idade, indica a Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia.
Enquanto numa coluna saudável as vértebras formam uma linha reta vertical (vista de costas), na pessoa com escoliose a coluna desvia-se para os lados em forma de “S” ou “C”.
Esta condição afeta entre 2% a 3% da população mundial, estimando-se que em Portugal existam cerca de 300 mil pessoas com escoliose de algum grau.
Curvatura em “S” ou “C”: o que muda na coluna
As duas apresentações mais comuns da escoliose são:
- Curvatura em “C” ou escoliose simples: a coluna desvia-se para um dos lados (esquerdo ou direito) numa única secção da coluna, seja na zona torácica (parte superior) ou na zona lombar (parte inferior).
- Curvatura em “S” ou escoliose dupla: a coluna desenvolve uma curvatura principal numa direção e, para compensar e manter o equilíbrio do corpo, cria outra curvatura na direção oposta noutra secção da coluna.
As curvas em “S” tendem a ser mais equilibradas visualmente, enquanto as curvas em “C” podem causar assimetrias mais evidentes na postura.
O ângulo de Cobb: como se mede a gravidade
Para determinar a gravidade, os ortopedistas utilizam uma medida radiológica chamada Ângulo de Cobb nas radiografias da coluna. A classificação define o tratamento:
- Escoliose ligeira (menos de 20 graus): não requer tratamento ativo, apenas observação médica regular.
- Escoliose moderada (entre 20 e 45 graus): exige habitualmente o uso de colete ortopédico durante o crescimento.
- Escoliose grave (mais de 45 graus): apresenta alto risco de progressão e pode afetar a respiração, necessitando frequentemente de cirurgia.
Tipos de escoliose
Nem todas as escolioses têm a mesma origem.
Escoliose idiopática: a mais frequente
De acordo com os dados clínicos da Scoliosis Research Society (SRS), a escoliose idiopática é a mais prevalente, representando cerca de 80% dos casos e sem causa identificável.
Este tipo de escoliose subdivide-se por idades:
- Infantil: dos 0 aos 3 anos (rara).
- Juvenil: dos 4 aos 10 anos.
- Adolescente: a partir dos 11 anos até ao final do crescimento.
- Adulta: em doentes com mais de 18 anos.
Na escoliose idiopática do adolescente, a doença é até 10 vezes mais comum em raparigas do que em rapazes.
Escoliose congénita
A escoliose congénita ocorre devido a uma falha no desenvolvimento das vértebras enquanto o bebé está no útero materno. Costuma ser detetada muito cedo.
Escoliose neuromuscular
Este tipo desenvolve-se em pessoas que sofrem de condições neurológicas ou musculares preexistentes, tais como paralisia cerebral, espinha bífida ou distrofia muscular.
Escoliose degenerativa (adultos e idosos)
Não se deve a problemas de crescimento, mas sim ao desgaste progressivo da coluna. É mais comum em pessoas acima dos 60 anos e pode provocar dor lombar crónica e compressão nervosa.
Causas e fatores de risco
À exceção dos casos congénitos e neuromusculares, as causas exatas da escoliose idiopática permanecem desconhecidas, embora exista uma forte componente genética e familiar. Os principais fatores que aumentam o risco de progressão da curvatura são:
Idade: o risco aumenta durante o surto de crescimento da puberdade.
Sexo: as raparigas têm maior probabilidade de progressão.
Magnitude inicial: quanto maior o ângulo de Cobb no diagnóstico, maior o risco de agravamento.
Sintomas da escoliose
Em jovens, a escoliose costuma ser indolor, o que dificulta a deteção precoce sem uma avaliação postural atenta.
Sinais visíveis: ombros, ancas e postura assimétrica
As assimetrias corporais são os sinais mais evidentes e incluem:
- Ombros ou ancas desalinhados (um lado mais alto).
- Uma omoplata mais proeminente nas costas.
- Cintura assimétrica ou inclinação lateral evidente do tronco.
Dor, limitação respiratória e outros sintomas
Nos adultos, dor lombar crónica e a rigidez articular são os sintomas principais. Se o doente padecer também de fibromialgia, o sistema nervoso processará a dor de forma amplificada (hiperalgesia), tornando-a mais intensa.
Em casos graves de escoliose (acima de 60º), a rotação das costelas causa falta de ar e fadiga crónica, enquanto a compressão nervosa na zona lombar pode provocar formigueiro ou fraqueza nas pernas.
Impacto emocional em adolescentes
A perceção de assimetria afeta a autoimagem dos jovens, gerando baixa autoestima, ansiedade e isolamento social (como evitar o ginásio ou piscinas), sobretudo se necessitarem de um colete ortopédico para escoliose.
Como se faz o diagnóstico?
O diagnóstico da escoliose é clínico e confirmado através de exames imagiológicos.
Teste de Adams e observação clínica
O médico avalia o doente em flexão do tronco para a frente (Teste de Adams). A presença de uma “bossa” ou gibosidade nas costas confirma a escoliose estrutural.
Radiografia da coluna e leitura do ângulo de Cobb
A radiografia em posição ortostática (de pé) é o exame de referência para medir a curvatura. Em casos graves, a Ressonância Magnética (RM) ou a Tomografia Computorizada (TC) ajudam a excluir outras causas e a planear a cirurgia.
Tratamento da escoliose
O tratamento da escoliose depende da gravidade da curva, da idade e do potencial de crescimento do doente:
Observação médica: indicada para curvas ligeiras (menos de 20 graus), com controlos a cada 6 meses.
Colete ortopédico: usado em adolescentes com curvas moderadas (entre 20 e 40 graus), o colete para escoliose é o tratamento mais comum para travar a progressão.
Fisioterapia: exercícios específicos (como o método Schroth) que fortalecem a musculatura e aliviam sintomas.
Cirurgia (Artrodese Vertebral): reservada para curvas graves (superiores a 40-50 graus) ou com risco cardiorrespiratório, fundindo as vértebras com hastes e parafusos.
Prognóstico: a escoliose tem cura?
A escoliose idiopática é uma condição estrutural que, geralmente, não desaparece completamente. Contudo, pode ser controlada de forma muito eficaz. O prognóstico é muito favorável se o diagnóstico for precoce.
Nos adultos, o tratamento da escoliose foca-se com sucesso no controlo da dor e na preservação da mobilidade.