A fibromialgia é uma doença crónica caracterizada por dores musculares generalizadas, rigidez e fadiga intensa. Afeta 2% a 4% da população adulta mundial e cerca de 300 mil portugueses, segundo a Sociedade Portuguesa de Reumatologia. Não é uma doença autoimune nem inflamatória e, por isso, os anti-inflamatórios não aliviam os sintomas.

É frequentemente chamada “doença invisível”, já que exames de rotina (análises, radiografias ou TAC) não revelam alterações. Muitos doentes passam anos sem diagnóstico e enfrentam comentários desvalorizadores como “isso é da tua cabeça” ou “és demasiado sensível”. No entanto, a dor é real nos fibromiálgicos e resulta de alterações na forma como o sistema nervoso processa os sinais dolorosos.

Caso tenha suspeita de fibromialgia ou conheça alguém que a tenha, esta informação interessa-lhe!

O que é a fibromialgia?

A fibromialgia é uma síndrome de dor crónica que afeta músculos, tendões e ligamentos. O dia de um adulto médio com sintomas de fibromialgia começa com o corpo dorido e outra noite sem conseguir um descanso profundo. 

Dois fenómenos são típicos nos fibromiálgicos:

  • Hiperalgesia: aumento anormal da sensibilidade à dor 
  • Alodinia: uma dor provocada por estímulos que normalmente não doem, como um toque leve na pele.

Muitos descrevem a sensação como um “volume da dor” sempre aumentado, acompanhado de sensibilidade a ruídos, pressão ou cheiros.

Causas e fatores de risco

As causas da fibromialgia não são totalmente conhecidas, mas combinam fatores genéticos, ambientais e neuroquímicos. O American College of Rheumatology (ACR) indica que 80% a 90% dos diagnósticos ocorrem em mulheres, sendo mais comum entre 30-50 anos mas podendo surgir noutras idades.

O que pode desencadear a fibromialgia?

Muitos doentes identificam um evento desencadeante antes do início dos sintomas, tais como infeções (mononucleose, hepatite C), traumatismos físicos (acidentes ou cirurgias), stresse psicológico prolongado (luto, divórcio ou burnout) ou a coexistência de outras doenças reumáticas (lúpus ou artrite reumatóide). 

Predisposição genética e hormonal

Ter familiares com fibromialgia aumenta o risco. Os estrogénios e as flutuações hormonais na menstruação ou menopausa podem agravar os sintomas. Além disso, o American College of Rheumatology destaca outra causa: a componente neuroquímica. 

As pessoas com fibromialgia apresentam desequilíbrios nos níveis de neurotransmissores como a serotonina, a dopamina e a noradrenalina. Estes neuroquímicos regulam estão relacionados com a regulação da dor, do humor e do sono. A ansiedade e a depressão  tem maior prevalência nestes doentes. 

Sintomas da fibromialgia

Os sintomas da fibromialgia afetam vários sistemas do organismo, indo muito além da dor. 

Dor generalizada: o sintoma principal

A dor é persistente, difusa e migratória. Os pontos dolorosos na fibromialgia não se concentram numa articulação específica: hoje dói o pescoço, amanhã as coxas, depois os ombros. A intensidade varia ao longo do dia e pode agravar-se com frio, humidade, esforço físico, stresse ou privação de sono .

Fadiga, sono não reparador e “fibro fog”

Estes sintomas são frequentes nas pessoas com fibromialgia:

Fadiga crónica: mesmo após uma noite inteira de sono, a pessoa acorda exausta, com fadiga e cansaço matinal. A sensação é de que o corpo “não carregou”.

Sono não reparador: o sono é fragmentado, superficial e pouco restaurador, com dificuldade em adormecer (insónia inicial).

“Fibro fog” (nevoeiro mental): dificuldade de concentração, lapsos de memória, lentidão no raciocínio e confusão mental.

Sintomas emocionais: ansiedade e depressão associadas

Entre 30% a 50% dos doentes com fibromialgia desenvolvem ansiedade, nervosismo ou depressão, resultado das alterações neuroquímicas e do impacto da dor crónica. 

Sintomas menos conhecidos (intestino, visão, sensibilidade)

A fibromialgia frequentemente coexiste com outras situações de saúde:

  • Síndrome do intestino irritável (SII) e refluxo gastroesofágico.
  • Síndrome da bexiga hiperativa ou irritável.
  • Cefaleias de tensão, enxaquecas, dor e estalido na mandíbula (disfunção da articulação temporomandibular), zumbidos nos ouvidos.
  • Sensibilidade a cheiros fortes, luz intensa ou ruídos.
  • Formigueiro ou dormência nas mãos e pés.

Como se faz o diagnóstico?

O diagnóstico da fibromialgia é clínico e os antigos “18 pontos dolorosos” já não são infalíveis. O ACR e as normas clínicas portuguesas para a abordagem da fibromialgia recomendam:

  • Índice de dor generalizada (WPI): identifica o número de áreas corporais onde o doente sente dor.
  • Escala de gravidade dos sintomas (SSS): avalia a gravidade da fadiga, do sono não reparador e das dificuldades cognitivas (concentração, memória, atenção).
  • Duração dos sintomas: pelo menos três meses.
  • Meios complementares: análises de sangue (hemograma, proteína C reativa, função tiroideia e outros) possibilitam descartar o hipotiroidismo, a artrite reumatoide ou o lúpus, que mimetizam a fibromialgia.

A dor deve afetar pelo menos quatro das cinco regiões corporais. 

Tratamento da fibromialgia

O tratamento da fibromialgia combina medicamentos, exercício e apoio psicológico.

Medicamentos: inclui relaxantes musculares, analgésicos, antidepressivos, indutores do sono e anticonvulsivantes.

Exercício físico: caminhada, natação, hidroginástica, bicicleta estática, alongamentos, ioga, pilates, tai-chi, qigong e treino de força leve.

Terapias complementares: terapia cognitivo-comportamental (TCC), mindfulness, meditação, massagem terapêutica e acupuntura.

Estilo de vida: evitar estimulantes, não fumar e reduzir ecrãs ao final do dia.

A fibromialgia tem cura?

A pergunta “a fibromialgia tem cura?” continua a ser frequente. Não existe cura, mas é possível controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida. Cada doente responde de forma diferente aos tratamentos, pelo que é essencial personalizar a abordagem.

Viver com fibromialgia: impacto no dia a dia e direitos em Portugal

Muitos doentes enfrentam dificuldades em manter o ritmo laboral devido à dor, à fadiga e às limitações cognitivas. Em Portugal, a fibromialgia pode conferir incapacidade temporária ou permanente, dependendo da gravidade e do diagnóstico (Norma 017/2016 da DGS). 

A avaliação da incapacidade pode atribuir acesso a:

  • Subsídio de doença (baixa médica).
  • Reforma por invalidez em casos graves e incapacitantes.
  • Atestado multiusos com benefícios fiscais.

No quotidiano, tarefas simples como carregar sacos de compras ou subir escadas podem dificultar-se. A adaptação do ambiente doméstico e técnicas como o pacing (para gerir as atividades e o descanso) melhoram a qualidade de vida.

A invisibilidade da dor contribui para o isolamento, pelo que grupos como a Associação Portuguesa de Síndrome de Fibromialgia (MYOS) oferecem apoio, informação e uma comunidade para doentes e familiares. 

Com o tratamento certo e uma rede de apoio sólida, é possível viver com fibromialgia de forma mais plena e funcional.

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