A linguagem ajuda-nos a comunicar e a dar ordem ao que pensamos e sentimos. Mas e se esse sistema deixasse de funcionar repentinamente? É essa a realidade da afasia, uma perturbação da linguagem que rouba subitamente a capacidade de ler, escrever, conversar e até de expressar uma simples opinião.
O Instituto Português da Afasia (IPA) sublinha que esta condição pode afetar “qualquer pessoa e em qualquer momento”. O seu impacto exige sensibilização e empatia para viver com afasia e superar os desafios diários.
Nas próximas linhas dir-lhe-emos o que a causa, como se manifesta e o que fazer quando a forma de se expressar muda drasticamente.
O que é a afasia?
A afasia é uma perturbação da linguagem adquirida, resultante de uma lesão cerebral, geralmente um Acidente Vascular Cerebral (AVC). A pessoa vê afetada, parcial ou totalmente, a sua capacidade para falar, ler, escrever e compreender as coisas.
No manual digital sobre esta perturbação, o IPA esclarece que não se trata de uma doença, mas de uma sequela. Frequentemente, as pessoas com afasia podem sentir-se confundidos, stressados ou ansiosos devido à dificuldade em responder a situações quotidianas como:
- Nomear pessoas ou objetos.
- Partilhar ideias e emoções.
- Ler em voz alta ou escrever mensagens.
- Compreender o que é dito.
A afasia não afeta a inteligência
A inteligência e o raciocínio permanecem intactos na pessoa com afasia. O problema reside apenas no acesso e processamento da linguagem. É como viver numa casa com paredes de vidro: o doente compreende o exterior, mas a “cablagem” para comunicar as suas ideias está danificada.
Quão comum é esta condição?
Em Portugal, estima-se que existam 40.000 pessoas com afasia, com 8.000 novos diagnósticos anuais. Um em cada três sobreviventes de AVC desenvolve esta condição.
Causas da afasia
Cerca de 70% dos casos derivam de um AVC (isquémico ou hemorrágico). A lesão que afeta a área da linguagem ocorre, normalmente, no lado esquerdo do cérebro.
Outras causas incluem:
- Tumores cerebrais que pressionam ou se estendem para as zonas da linguagem.
- Traumatismos cranioencefálicos (TCE): comuns em 20% dos casos de reabilitação.
- Doenças neurodegenerativas ou infeções que causam deterioração progressiva no tecido cerebral.
Tipos de afasia
A afasia não se comporta da mesma forma em todos os casos. A classificação depende da fluência do discurso e da capacidade de compreensão:
Afasia de Broca (não fluente)
O discurso é lento e telegráfico. Por exemplo, pode dizer “Comida… vou… supermercado”. A pessoa tem consciência da dificuldade, gerando elevados níveis de frustração.
Afasia de Wernicke (fluente)
A pessoa fala com ritmo normal, mas o conteúdo é incompreensível, podendo inventar palavras sem se aperceber do erro.
Afasia global
A forma mais grave, resultante de lesões extensas, limitando a comunicação a poucos sons ou palavras repetitivas.
Afasia progressiva primária (APP)
Diferente das anteriores, a afasia progressiva primária ou APP surge gradualmente devido a doenças degenerativas, afetando a linguagem e a memória de forma progressiva. O tratamento foca-se em atrasar o avanço dos sintomas.
Sintomas da afasia
Os sintomas dependem do tipo de lesão. O mais comum é a anomia, a qual é a dificuldade constante em recordar nomes de pessoas ou objetos.
Dificuldades na fala e expressão
Uma pessoa com afasia pode necessitar de muito esforço físico para articular as palavras. Pode repetir frases automáticas, substituir sons ou empregar frases sem gramática, ou incompletas.
Dificuldades na compreensão, leitura e escrita
A afasia pode comprometer as competências de compreensão. O cérebro ouve os sons, mas não os interpreta. As redes afetadas comprometem igualmente a capacidade de ler e escrever.
Impacto social e emocional
A perda da fala pode levar ao isolamento e à depressão (até 90% dos casos), apatia (40%) ou ansiedade (30%).
Diagnóstico
Un diagnóstico preciso é o passo principal para planear a recuperação. Utilizam-se testes padronizados, como a Bateria de Avaliação da Afasia de Lisboa e o Teste de Boston, com estudos de neuroimagem (Ressonância Magnética e Tomografia) que permitem localizar a lesão e medir o seu alcance.
A avaliação deve ser realizada por uma equipa interdisciplinar, encabeçada por terapeutas da fala e neurologistas, para garantir uma abordagem completa e personalizada.
Tratamento e reabilitação
A recuperação exige um plano constante e personalizado, combinando terapia da fala, exercícios cognitivos e apoio psicológico. A intensidade do tratamento depende da lesão, mas a intervenção precoce é crucial.
Em Portugal, o Instituto Português da Afasia (IPA) e o Serviço Nacional de Saúde (SNS24) oferecem recursos vitais para as famílias, desde a teleterapia até grupos de conversação e apoio psicológico para cuidadores.
A reabilitação é um caminho longo, mas com suporte adequado, é possível retomar uma vida plena, lembrando que a essência e a inteligência da pessoa com afasia continuam presentes após o silêncio.
Referências:
- Instituto Português da Afasia (IPA). Viver com Afasia: Guia Prático e Cuidar e Lidar com a Afasia.
- Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (RPMGF). Avaliação da afasia pelo Médico de Família.
- Serviço Nacional de Saúde (SNS24). Aconselhamento psicológico no SNS 24.
- Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Laboratório de Estudos de Linguagem.
- American Stroke Association. Aphasia and Stroke: Communication Challenges.
- National Aphasia Association. Primary Progressive Aphasia (PPA).