O AVC isquémico ocorre quando um vaso sanguíneo do cérebro é obstruído. Conheça os sintomas de alerta, as principais causas e os fatores de risco.
Em Portugal, a cada 60 minutos, três pessoas sofrem um acidente vascular cerebral (AVC). Segundo a Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, 85 % destes episódios correspondem a um AVC isquémico, uma obstrução súbita de uma artéria que priva de sangue, oxigénio e glicose as áreas afetadas do cérebro.
Detetar rapidamente os sintomas do AVC isquémico é determinante para a sobrevivência e qualidade de vida do doente. Sob o lema “Tempo é Cérebro!”, estima-se que cada minuto de atraso no tratamento resulte na perda de 1,9 milhões de neurónios.
O que é um AVC isquémico?
O AVC isquémico, muitas vezes chamado de “enfarte cerebral”, ocorre quando o fluxo sanguíneo para uma parte do cérebro é interrompido devido a um bloqueio mecânico. Sem o fornecimento de nutrientes vitais, as células cerebrais começam a morrer em poucos minutos.
Diferença entre AVC isquémico e hemorrágico
Conforme indica o Serviço Nacional de Saúde (SNS), os AVC são a principal causa de morte e incapacidade permanente em Portugal, com cerca de 25.000 casos anuais. É crucial não confundir os dois tipos de AVC (isquémico ou hemorrágico), pois os tratamentos são opostos:
- AVC isquémico: ocorre quando uma artéria é bloqueada por um coágulo ou placa de colesterol. Representa 85 % dos casos.
- AVC hemorrágico: acontece quando uma artéria se rompe e o sangue se espalha no interior do crânio. Representa 15 % dos AVC.
No caso de um AVC isquémico, os médicos tentam dissolver ou remover o coágulo para restaurar o fluxo sanguíneo; já num AVC hemorrágico, essa intervenção iria agravar a hemorragia. Para distinguir ambos, o diagnóstico requer obrigatoriamente um exame de imagem, como a Tomografia Computorizada (TC), antes de se iniciar qualquer terapia.
Tipos de AVC isquémico
Nem todos os bloqueios ocorrem da mesma forma no AVC isquémico:
- Trombótico: o coágulo (trombo) forma-se numa artéria cerebral já danificada pela aterosclerose.
- Embólico: o coágulo (êmbolo) forma-se noutra parte do corpo (geralmente no coração) e viaja até ficar preso numa artéria do cérebro.
- Lacunar: ocorre nas artérias mais pequenas e profundas do cérebro. Está intimamente ligado à hipertensão crónica.
Causas e fatores de risco
A maioria dos episódios pode ser prevenida com alterações no estilo de vida. Os principais fatores de risco são:
Hipertensão arterial: principal responsável, presente em até 88 % dos doentes.
Diabetes mellitus: causa entre 20 % a 26 % dos AVC isquémicos.
Tabagismo: duplica o risco de sofrer um AVC.
Doença cardíaca: condições como a fibrilhação auricular facilitam a formação de coágulos que podem viajar até ao cérebro.
Estilo de vida: sedentarismo, consumo excessivo de álcool, colesterol elevado (dislipidemia) e obesidade aumentam os riscos.
Sintomas do AVC isquémico
Os sintomas de um AVC isquémico surgem de forma súbita, com sinais variáveis.
Sinais de alerta: o método FAST
Para simplificar a deteção, a comunidade médica internacional promove o método FAST. Em Portugal, é também conhecido como a regra dos “3 Fs”: Face (Rosto), Força e Fala.
O método pode identificar rapidamente um AVC isquémico e é aplicado da seguinte forma:
- Face (Rosto): peça à pessoa para sorrir. Verifique se o rosto está assimétrico ou se tem a “boca caída”.
- Arms (Braços): peça para levantar os braços. Veja se um deles descai ou se há falta de força num dos lados.
- Speech (Fala): a fala é impercetível? Ou a pessoa diz frases sem sentido?
- Time (Tempo): se notar algum destes sinais, ligue imediatamente para o 112. Não contacte o médico de família nem se desloque ao hospital por meios próprios! Ao ligar 112 e indicar “Suspeita de AVC”, ativa a Via Verde do ACV, garantindo que a equipa de neurologia e o tomógrafo estão prontos à sua chegada.
Sintomas segundo a área afetada do cérebro
Os sintomas de um AVC isquémico dependem da parte do cérebro afetada pelo bloqueio:
Área motora: a pessoa sente fraqueza ou paralisia, quase sempre num dos lados do corpo (hemiparesia).
Área da linguagem: notarão dificuldade em falar (disartria) ou em compreender o que lhes é dito (afasia).
Área do equilíbrio: podem surgir tonturas intensas ou falta de coordenação (ataxia).
Outros sintomas:
- Vertigem intensa.
- Visão turva ou dupla.
- Fraqueza numa das mãos.
- Adormecimento num lado do corpo.
AIT: o “mini-AVC” como sinal de alerta
Um Ataque Isquémico Transitório (AIT) é um episódio temporário onde os sintomas duram pouco tempo (geralmente menos de uma hora) porque o corpo dissolve o coágulo sozinho. Não deve ser ignorado: estima-se que 19 % dos doentes com AVC grave tenham tido um AIT anteriormente. Considere-o um alerta urgente.
Diagnóstico e tratamento
A TC de urgência é o método mais rápido para excluir hemorragias. Em certos casos, a Ressonância Magnética (RM) complementa o diagnóstico quando há suspeita de enfartes muito pequenos.
Para o tratamento, a trombólise química com rt-PA (um medicamento intravenoso) pode reverter os danos se administrada nas primeiras 3 a 4,5 horas após o início dos sintomas. Outra opção é a remoção do coágulo através de um cateter (trombectomia mecânica).
Prognóstico e recuperação
O sucesso da recuperação depende da idade, da gravidade e, acima de tudo, da rapidez do socorro. A reabilitação deve começar precocemente (nas primeiras 24 a 48 horas) para aproveitar a neuroplasticidade do cérebro.
Para a recuperação, é importante que toda a equipa multidisciplinar inclua fisioterapia para a mobilidade; terapia da fala para a comunicação e deglutição; e apoio psicológico para o doente e família. O objetivo é reduzir a dependência e acelerar o regresso do doente à vida diária.
A longo prazo, manter a pressão arterial sob controlo e aderir ao tratamento preventivo ajudará a evitar recorrências.
Referências:
- Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral (SPAVC). Manual Digital e Guia de Enfermagem do AVC.
- Serviço Nacional de Saúde (SNS24). Acidente Vascular Cerebral (AVC).
- DGS / SNS. Protocolo da Via Verde do AVC.